Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho
Noticias

Por que o manual agronômico falha no solo amazônico?

Na avaliação do empresário Alfredo Moreira Filho, especializado em gestão empresarial, a região do Amazonas guarda uma contradição que desconcerta quem chega com o manual das escolas do Sul e do Sudeste. A maior floresta tropical do planeta cresce, em boa parte, sobre solos pobres para a agricultura. Para quem vê de fora, parece lógico supor que tanta vegetação indique terra fértil. A realidade técnica é outra.

Entender essa aparente contradição ajuda a ler com mais cuidado qualquer promessa de transformar a Amazônia em celeiro agrícola. Acompanhe os motivos a seguir e veja por que a técnica correta, aplicada no lugar errado, pode produzir apenas prejuízo.

O que existe debaixo da floresta?

Grande parte da terra firme amazônica é formada por latossolos vermelhos e amarelos, solos antigos, profundamente desgastados pelo clima, ácidos e ricos em alumínio. Nessas condições, Alfredo Moreira Filho explica que o alumínio fica disponível em quantidade tóxica para as raízes, enquanto nutrientes como fósforo e cálcio se tornam escassos. A maior parte das culturas agrícolas simplesmente não se desenvolve sem correção prévia.

A floresta sobrevive porque não depende do subsolo como uma lavoura. Os nutrientes circulam num ciclo fechado entre a vegetação, a camada de folhas em decomposição e as raízes superficiais, alimentado pela umidade constante e pelas chuvas. Quando a mata é derrubada, esse ciclo se rompe. A fertilidade aparente desaparece em poucas safras.

A correção que o manual ensina e a logística que não acompanha

Em qualquer curso de agronomia, a resposta para solo ácido é a calagem, isto é, a aplicação de calcário para neutralizar a acidez, seguida de adubação com nitrogênio, fósforo e potássio. O problema na Amazônia é de escala e de transporte. O insumo precisa atravessar longas distâncias, por rio ou por estradas precárias, até chegar ao produtor, e o frete multiplica o custo.

Alfredo Moreira, que atuou na extensão rural e no fomento agropecuário do Amazonas, descreve em suas memórias o impacto disso no Distrito Agropecuário da Zona Franca de Manaus. Segundo seu relato, os solos de terra firme exigiam mais de três toneladas de calcário por hectare, insumo que o estado não tinha disponível. A técnica estava correta; faltava o contexto para aplicá-la de forma viável.

A várzea: fértil, mas com prazo

As várzeas, terras às margens dos rios de água barrenta, contam outra história. Renovadas a cada cheia pelos sedimentos trazidos das cabeceiras, são férteis e dispensam boa parte da correção. O limite é o calendário: ficam debaixo d’água durante grande parte do ano, e o intervalo de plantio depende da vazante. Rios de água preta, como o Negro, formam pouquíssima várzea.

Quem planta nesse ambiente precisa de ciclos curtos e de leitura, precisa do regime das águas. Um plantio que atrasa semanas pode ser alcançado pela enchente antes da colheita. Foi num platô de solo escuro às margens do rio Urubu, perto de Itacoatiara, que o agrônomo registra ter cultivado feijão-de-corda, conhecido na região como feijão-de-praia, experiência associada ao título concedido pelo Crea/AM.

Monocultura: o convite às pragas

Outro ponto em que o manual tropeça é a lavoura homogênea. Na floresta, espécies como a seringueira aparecem dispersas, com grande distância entre um indivíduo e outro, o que dificulta a propagação de doenças. Ao concentrar milhares de plantas iguais numa mesma área, o produtor oferece às pragas e aos fungos locais um banquete contínuo.

O caso da seringueira é emblemático. O mal-das-folhas, doença causada por um fungo, destrói as brotações novas e comprometeu plantios comerciais em diferentes momentos da história da borracha, inclusive as grandes plantações de Henry Ford no Pará. Na percepção de Alfredo Moreira Filho, quem chegou à região com diploma na mão precisou reaprender o ofício no campo. O que a experiência amazônica ensina, portanto, é menos uma receita e mais um método: estudar o ambiente antes de replicar tecnologias criadas para outros climas.